A Sonangol oficializou uma das mais relevantes viragens estratégicas da sua história recente.
Durante a apresentação dos resultados anuais, o presidente do Conselho de Administração, Sebastião Gaspar Martins, anunciou a entrada directa da companhia no segmento de minerais críticos.
O anúncio trata-se de uma resposta estrutural à pressão da transição energética global e à necessidade de proteger margens num mercado petrolífero cada vez mais volátil.
Em 2024 a Sonangol obteve um lucro líquido em torno dos 807 milhões de USD, enquanto 2025 foi um ano menos rentável, com um lucro líquido de cerca de 750 milhões USD. A redução de cerca de 57 milhões USD representa uma contração na ordem dos 7%, sinalizando erosão de rentabilidade num ambiente de preços internacionais pressionados e custos operacionais crescentes.
Num país onde o petróleo continua a representar uma parcela significativa das exportações e receitas fiscais, essa queda surge como um alerta macroeconómico.
A Sonangol confirmou ainda a posse de sete concessões de exploração mineira, focadas em recursos considerados estratégicos como o Urânio — essencial para a expansão da energia nuclear como fonte estável e de baixa emissão – o Lítio, que é um insumo central para baterias de veículos eléctricos e sistemas de armazenamento energético e o quartzo, um componente crítico para semicondutores, painéis solares e indústria electrónica.
Esses minerais integram o grupo dos chamados critical minerals, cuja procura global tem crescido, impulsionada pela electrificação, digitalização e políticas de descarbonização.
Ao entrar neste mercado, Angola deixa de ser vista apenas como “exportadora de petróleo” e passa a integrar um segmento associado a segurança energética, transição verde e cadeias globais de alta tecnologia, que, numa perspectiva a longo prazo, podem levar o país a uma dinâmica de resiliência financeira, com receitas menos correlacionadas ao preço do petróleo e, até mesmo, integração nas cadeias globais de minerais estratégicos.
Ao seguir este caminho, a Sonangol aproxima-se da tendência actual entre as grandes companhias energéticas globais, que estão a transformar-se em empresas de energia integradas, reduzindo a exposição exclusiva aos hidrocarbonetos.
Diante deste cenário, é importante sublinhar que não significa, nem há hipótese de significar uma saída imediata do petróleo.
Em 2025, a empresa reportou uma produção média de aproximadamente 217.000 barris de óleo equivalente por dia (boed). Mesmo sendo um número relativamente inferior, comparando a outras realidades do sector no país, o petróleo continua a ser o motor de geração de renda.
A queda de 7% no lucro anual serviu como sinal de alerta, para o qual, a procura pela diversificação é a melhor resposta. Se a execução técnica acompanhar a ambição estratégica, a Sonangol poderá evoluir de empresa petrolífera pública para player energético multifacetado, com uma presença relevante no petróleo, gás e minerais críticos.










