O mais recente relatório do Banco Nacional de Angola (BNA) sobre os indicadores de crédito revela uma mudança de paradigma silenciosa, mas profunda, na banca nacional.
Até Janeiro de 2026, o financiamento ao sector real da economia — o motor da produção interna — deu um salto significativo, impulsionado quase exclusivamente pelas directrizes regulatórias do banco central.
O crédito total concedido ao abrigo do Aviso n.º 10/2024 do BNA atingiu a marca histórica de 1,4 biliões de kwanzas, que representa hoje 73,3% de todo o crédito direccionado ao sector real.
Esta dependência do quadro normativo sugere que a banca comercial está a alinhar-se a estratégia de diversificação económica, embora levante questões sobre quanto deste crédito seria concedido sem a “mão” do regulador. Em comparação com o período homólogo, o aumento foi de 35,8%, o que demonstra uma aceleração na injecção de liquidez projectada para o fomento da produção nacional.
Analisando os subsectores, a Indústria Transformadora surge como principal protagonista, tendo recebido, até Janeiro, um reforço de 177,3 mil milhões de kwanzas (aproximadamente 192,2 milhões de dólares).
O dado mais revelador é a “fidelidade” deste sector ao regime de fomento, sendo que 95,4% do seu stock de crédito (cerca de 757,1 mil milhões Kz) foi obtido através das condições do Aviso 10/24. O que indica que a indústria de transformação angolana encontrou no crédito bonificado o oxigénio necessário para sustentar as suas operações e expansão.
Embora a transformação receba o maior volume, a Indústria Extractiva foi quem registou o crescimento mais agressivo. Com um incremento homólogo de 59,2%, este subsector absorveu quase 300 mil milhões de kwanzas adicionais.
“O crédito bruto direccionado ao sector Real totalizou 1,9 biliões de kwanzas, impulsionado principalmente pelo incremento de recursos disponibilizados ao subsector de Indústria Extractiva“, destaca a Nota de Informação Estatística do BNA, citada pelo Jornal de Angola.
Para além do sector real, o panorama do crédito não financeiro em Angola fixou-se nos 8,8 biliões de kwanzas. É um ecossistema dominado pelo sector privado, que detém 85,4% deste endividamento, contra apenas 14,6% do sector público.
Um sinal positivo para a soberania monetária é o stock de crédito em moeda nacional, que cresceu 18,9%, atingindo os 7,2 biliões de kwanzas. Isto reflecte um sistema financeiro que, embora desafiado pela inflação e volatilidade, começa a apostar mais no Kwanza como unidade de financiamento a longo prazo.
Agora, sucesso desta estratégia dependerá da capacidade de transformação destes 1,9 biliões de kwanzas em produção efectiva nas prateleiras e postos de trabalho. O BNA fez a sua parte ao “forçar” a liquidez para o sector produtivo; cabe agora aos operadores económicos a responsabilidade de converter este crédito em crescimento real do PIB não petrolífero.









