O Governo angolano planeia contrair mais de 4 mil milhões de dólares, cerca de 3,83 biliões de kwanzas em financiamento externo apenas para reforçar a tesouraria do Estado ao longo de 2026.

Este valor, que representa quase metade (48%) de todo o financiamento externo previsto, revela uma dependência preocupante da dívida para cobrir necessidades correntes de liquidez, em vez de apostar decididamente no investimento produtivo.

De acordo com o Plano Anual de Endividamento (PAE) 2026, aprovado pelo Presidente da República através do Decreto Presidencial n.º 1/26, de 5 de janeiro, o Executivo pretende captar, no total, 15,04 biliões de kwanzas – cerca de 15,95 mil milhões de USD – para financiar o Orçamento Geral do Estado (OGE). Espera-se que 8,41 mil milhões de USD venham do exterior.

A repartição prevista para o financiamento de tesouraria conta com 1,68 mil milhões de USD através de emissões nos mercados internacionais de capitais (Eurobonds), 500 milhões de USD via operações de política de desenvolvimento (DPO) do Banco Mundial e, quanto ao restante, – cerca de 1,43 mil milhões de USD – de financiamentos comerciais e operações como o Debt for Health swap.

É sustentável continuar a solicitar financiamento?

Uma parte significativa do novo endividamento servirá para amortizar dívida antiga. O serviço da dívida em 2026 deverá atingir 16,17 mil milhões de USD — um aumento de cerca de 15% face ao ano anterior —, com cerca de 58% correspondente à dívida externa.

No final do ano, o stock da dívida pública deverá rondar os 64,3 mil milhões de USD, embora o rácio dívida/PIB beneficie da atualização da base do PIB e recue ligeiramente. Este alívio estatístico não esconde a realidade: Angola continua a rolar dívida em vez de a reduzir de forma estrutural.

Em março de 2026, Angola regressou aos mercados internacionais com uma emissão de 2,5 mil milhões de USD em Eurobonds — acima dos 2 mil milhões inicialmente previstos —, dividida em duas tranches (de 7 e 11 anos), com taxas de juro de 9,375% e 9,875% respectivamente.

A operação registou uma forte procura (cerca de 5,2 mil milhões de USD) e foi classificada como “histórica” pelo Ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano.

Sem dúvida, foi um sinal positivo de que os investidores ainda confiam no país, impulsionados pela subida dos preços do petróleo. No entanto, esta “vitória” tem um preço elevado. Taxas acima de 9% em dólares representam um encargo significativo para uma economia ainda excessivamente dependente do crude. Se o preço do barril cair novamente, o custo do serviço da dívida pode tornar-se insustentável.

Enquanto se captam milhares de milhões no exterior para “reforçar a tesouraria”, o investimento produtivo e a criação de emprego privado permanecem aquém do necessário. Esta estratégia pode dar algum fôlego no curto prazo, mas corre o risco de hipotecar o futuro das próximas gerações com uma dívida cada vez mais pesada.

Angola tem recursos naturais, uma população jovem e potencial enorme. O que lhe falta, mais do que dinheiro emprestado, é coragem política para fazer as escolhas difíceis que transformem a dependência da dívida numa verdadeira independência económica.