Enquanto os relatórios económicos continuam a apontar o petróleo como o coração da economia angolana, uma realidade paralela cresce todos os dias, silenciosa, digital e maioritariamente fora das estatísticas oficiais.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), até o segundo trimestre de 2025, 78,6% da população empregada em Angola estava no sector informal, de acordo com os resultados do Inquérito ao Emprego divulgados recentemente.
Como destaca o próprio relatório do INE, esse nível de informalidade “*continua a caracterizar de forma estrutural o mercado de trabalho angolano*”. Ou seja, há muitas a produzir, mas boa parte o faz fora do sistema.
E ainda assim, a economia não colapsa. Pelo contrário, adapta-se.
De acordo com a Empresa Interbancária de Serviços (EMIS), entidade gestora da rede Multicaixa, “*A rede Multicaixa processou mais de 69 biliões de kwanzas em 2025, com cerca de 3,4 mil milhões de operações realizadas… Os canais digitais, com destaque para o Multicaixa Express, continuam a liderar o crescimento das transacções, representando a maior parte das operações realizadas no sistema*.”
Numa linguagem mais simplificada, muito do que é consumido é pago com o telemóvel. E assim, dinheiro circula rápido, quase invisível e sem burocracia.
Segundo análises do sector financeiro publicadas em 2025, verifica-se uma “*migração progressiva dos meios físicos para soluções digitais de pagamento, com forte adesão dos utilizadores urbanos*”.
Uma realidade com cada vez mais negócios sem loja e actividade económica sem registo.
Hoje, uma parte significativa do comércio urbano acontece fora dos modelos tradicionais, onde produtos são vendidos em grupos de WhatsApp, por mensagens directas e com entregas informais; sem loja, sem factura e sem “complicação”.
Além de um “crescimento” que não aparece no PIB, uma vez que grande parte dessa actividade não entra nas contas oficiais, como apontam analistas económicos:
“*Uma parcela significativa da actividade económica em Angola permanece fora dos registos formais, limitando a capacidade dos indicadores tradicionais, como o PIB, de reflectirem a realidade económica do país*.”
Perante este cenário, ignorar a informalidade digital não é só um erro técnico, é um erro estratégico, uma vez que é justamente aí que está boa parte do consumo, circulação de dinheiro e, em grande parte, a sobrevivência das famílias.
No fim, a economia angolana está – além dos relatórios oficiais – nas ruas, nos mercados, e, cada vez mais, na palma da mão.
E agora, qual o próximo passo?
