A economia angolana continua em fase de transição de economia maioritariamente dependente da produção petrolífera, para um modelo menos dependente do petróleo.
Em 2025, o sector não-petrolífero representou cerca de 81% do PIB e cresceu 7,34% no final do ano, impulsionando um crescimento trimestral do PIB de 5,7% no 4.º trimestre. Para 2026, o BNA prevê um crescimento global de cerca de 3,5%, sustentado, principalmente, pelo sector não-petrolífero.
Neste contexto, o acesso ao financiamento surge como o principal gargalo — e, simultaneamente, como a maior alavanca — para acelerar a diversificação.
O stock de crédito ao sector não-financeiro atingiu 7,6 biliões de kwanzas em janeiro de 2026 (aumento de 14,7% face a janeiro de 2025), com as empresas privadas a absorver a maior fatia, onde o Aviso n.º 10/2024 do BNA continua a ser o instrumento mais relevante no presente cenário.
Apesar do crescimento nominal, persistem assimetrias graves: mais de 50% do crédito concentrou-se em Luanda e nas grandes empresas. As micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) continuam a enfrentar dificuldades de colateral e de documentação, o que limita o impacto inclusivo da política.
Em março de 2026, o Grupo Banco Mundial aprovou um pacote de aproximadamente 1,1 mil milhões de dólares, sendo 750 milhões em empréstimo de política de desenvolvimento e mais 240 milhões em garantia e ainda a mobilização de 400 milhões comerciais via MIGA). Este financiamento está condicionado a reformas estruturais que visam precisamente melhorar o ambiente de negócios, a inclusão financeira e a criação de emprego para a população jovem.
Parte dos recursos destina-se ao Corredor do Lobito e a iniciativas de “*debt-for-education*” e “*debt-for-health*”, com o objectivo de permitir que Angola troque dívida cara por investimentos sociais com custos de financiamento mais baixos.
O Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA) também sinaliza uma retoma selectiva do crédito em 2026, com foco em agricultura, pescas e indústria, prevendo investir cerca de 130 mil milhões de kwanzas em projectos produtivos.
Contudo, apesar dos muitos projectos propostos e aprovados, quando olhamos para a concentração geográfica e por dimensão, vemos que o crédito ainda continua muito urbano e direccionado a grandes players, além de que, apesar das bonificações, o processo de aprovação ainda é demorado para muitas PMEs, e, apesar de o Fundo de Garantia de Crédito ter sido reforçado, a sua capacidade ainda não cobre toda a demanda.
Assim, relativamente ao que se espera para 2027, caso as reformas associadas ao pacote do Banco Mundial forem implementadas com eficácia, e caso o novo regime de financiamento colaborativo ganhe a força que se espera que tenha, Angola pode assistir a uma melhoria gradual do acesso ao crédito fora de Luanda e para projectos de menor escala, dependerá apenas da capacitação técnica das PMEs para preparar projectos bancáveis, fortalecimento do sistema de garantias e seguros de crédito e monitorização rigorosa da aplicação do Aviso 10 para evitar que os recursos fiquem concentrados nos mesmos beneficiários.
O financiamento deixou de ser apenas uma ferramenta técnica para se tornar um instrumento estratégico de política económica. Angola tem hoje mais instrumentos do que nunca (Aviso 10, BDA, Banco Mundial, crowdfunding, garantias internacionais), mas o desafio continua a ser transformar esses recursos em crescimento inclusivo e sustentável.
Sem crédito acessível e bem direccionado à economia real, a diversificação continuará a ser mais uma intenção do que uma realidade.
